terça-feira, 8 de novembro de 2011

Por causa de Agualusa... Mais um pouco de Fernando Pessoa!

 

 Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:

- 1888: Nasce
Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.

- 1893: Perde o pai.

- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.

- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.

- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.

- 1912: Estréia na Revista Águia.

- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.

- 1918/1921: Publicação dos
English Poems.

- 1925: Morre a mãe do poeta.

- 1934: Publica
Mensagem.

- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.


Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 418.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

CONTO 10 - CATÁLOGO DE SOMBRAS

Quem ler o conto e gostar de Fernando Pessoa vai amar. Portando peço que quem quiser comentar faça-o ou simplesmente escreva pequenos poemas do poeta exposto no conto ou alguns de seus versos. Ser for de algum heterônimo não esqueça de citá-lo.

Algumas considerações sobre a poética de Fernando Pessoa, através de "Isto"



Fernando Pessoa é conhecido como o poeta do pensamento. A emoção para ele nada mais é do que algo pensado, destituída de si própria. O próprio Pessoa declara: “O que em mim sente ‘stá pensando”. Isso porque de acordo com Moisés (1998) o grau da poesia de Pessoa é aquele em que o poeta, por causa da sua alta intelectualidade e do seu valor imaginativo, entra em processo de despersonalização, processo em que ele passa a “viver os estados da alma que não tem diretamente” (MOISES, 1998, p.21).

“Pessoa não consegue render-se à emoção pura, destituída de pensamento (...) o pensamento da emoção, como se experimentá-la consistisse em detectar as sombras de um corpo que desvelasse a medida em que vencêssemos a obscuridade que projeta e o que encobre” (MOISES, 1998, p.19).

Para ele, as sensações devem ser valorizadas e sentidas, mesmo que seja um “falso sentimento”, um sentimento ou sensação que ele procura imaginar.

“Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação”

Este fragmento do poema “Isto”, nos parece uma resposta a uma crítica sofrida pelo autor, crítica esta em que dizem que ele finge e mente tudo que escreve. Ao dizer que “Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação”, Pessoa postula que, ao escrever, ele não está mentindo, que seu sentimento provém da imaginação. Ele somente pensa em determinadas situações que não viveu ou que não pode viver em detrimento de outras e busca através do pensamento senti-las. O pensamento já é o bastante para que viver todas as situações que desejar.
Nos cinco versos posteriores o autor diz:

“Tudo  que sonho ou passo,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa que é linda”

Essa coisa linda a que Pessoa se refere nada mais é que a consequência de sua imaginação, a transfiguração da arte que ele opera através da imaginação. Ele, ao comparar o terraço com o que sonha ou passa, simboliza a realidade bela e exuberante que se esconde por trás das coisas que nunca imaginamos. Não se imagina que atrás de uma coisa insignificante possa haver realidades de um mundo maior. O poeta parece nos oferecer a ideia de que em toda sua imaginação está contida a essência da poesia do pensamento, a busca através do pensamento de algo maior, que pode estar contido em algum lugar inesperado. A impressão que temos é a de que o poeta inventa tudo: a emoção, o pensamento, os objetos que relata; mas no fundo, tudo o que ele relata nada mais é do que um fingir, até para si próprio; fingir emoções e sensações para que vivê-las em seus pensamentos.

“ Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
livre do meu enleio,
sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Ao dizer que escreve “em meio do que está ao pé”, ele parece nos dizer que escreve através de coisas, de sentimentos que não se pode alcançar facilmente, essas coisas que não estão ao pé são os próprios pensamentos, a própria poesia do autor que é desprovida de pensamentos e de sensações pelas quais ele já tenha passado, ele se concentra num mundo totalmente intelectualizado, quase impossível  de ser alcançado.

 Ao dizer “Sentir? Sinta quem lê!”, podemos notar que o autor está a dar a resposta, de forma irônica, em relação ao primeiro parágrafo em que diz: “Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo”. Para ele, não importa o sentir, que sinta então o leitor apreciador da sua poesia, apreciador do sentimento expresso nela, é o único que poderá sentir o texto, mesmo que a finalidade deste não seja a de ser sentido.

“O próprio poeta diz não lhe interessar mais o sentir.” Quando ele começa a pensar, o sentimento se esvai e o que resta a ele é somente se dividir, multiplicar as possibilidades do pensar a emoção. Com essa destituição do sentir o poeta perdeu não só a emoção diante das coisas, mas a própria identidade, talvez, por causa disso, nunca descobriremos o que pensava ou se existia um verdadeiro Fernando Pessoa (MOISES, 1998, p.23- 24).

 Pessoa, em sua poesia, rejeita o sentimentalismo, esse fato fez com que houvesse uma revolução em toda poesia portuguesa, principalmente pelo fato de o poeta entrar em plena despersonalização, não só a sentir, mas também vivendo os estados da alma que não possui diretamente. Ele faculta a seu texto expor diretamente o que desejar, suas ideias provêm da imaginação, que faz com que seja extremamente criativo (MOISES, 1998­­).

Referências:
MOISÉS, Massaud. .A Literatura Portuguesa. 19 Ed. São Paulo: Cultrix, 1998, p.235 – 254.
 Isto. In: PESSOA, Fernando. Obra poética: volume único. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, p. 165.

Rodrigo C. M. Machado é Mestrando em Letras, com ênfase em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Viçosa.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

2011 - Ano Internacional dos Afrodescendentes

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, fez um apelo para que a comunidade internacional  se empenhe em garantir aos afro-descententes direitos fundamentais como a saúde e a educação, no lançamento oficial do Ano Internacional dos Afrodescendentes - 2011.
 
“Vamos todos intensificar os nossos esforços para assegurar que os povos afrodescendentes possam gozar de todos os seus direitos”, afirmou Ban Ki-moon na sexta-feira, em Nova York. Homenagear os povos de origem africana foi uma iniciativa da Assembleia-Geral da ONU, em reconhecimento da necessidade de se combater o racismo e as desigualdades econômicas e sociais.

Os afrodescendentes estão entre as comunidades "mais afetadas pelo racismo" e "enfrentam demasiadas vezes restrição de acesso a serviços básicos, como saúde e educação de qualidade ", afirmou o secretário-geral da ONU.  "A comunidade internacional não pode aceitar que comunidades inteiras sejam marginalizadas por causa da sua cor de pele", afirmou.

Ban lembrou ainda das metas de integração e promoção da equidade racial estabelecidas pelos países-membros da ONU na Conferência de Durban, em 2001.  O compromisso foi reiterado no ano passado, na Conferência de Revisão de Durban, realizada entre 20 e 24 de abril de 2009 em Genebra (Suíça).

Mais da metade de população brasileira tem ascendência africana. Segundo dados do IBGE de 2009, 51,1% dos brasileiros se reconhecem como "pretos" ou "pardos". Com a segunda maior população negra do planeta (e primeira fora do continente africano), a missão do Brasil na ONU congratulou a celebração do Ano Internacional dos Afrodescendentes, como “uma ocasião para chamar atenção para as persistentes desigualdades que ainda afetam esta parte importante da população brasileira”.

 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Que disparate!


     Obrigada professores Eliane e Vilson pela colaboração.
     Ora bem. O nosso caro repórter nos deu uma boa idéia. Além do nosso livro Manual prático de levitação, que está sendo lido em saborosas "doses homeopáticas", conto por conto, participe da nossa enquete nos revelando qual o livro mais recente que você leu ou está lendo no momento. Não esqueça do nome do autor.  Comente sobre o livro lido se quiser.

Vivendo e aprendendo...

Olá caríssimos, aí está meu primeiro vídeo. Espero que gostem. Foi um parto difícil mas com a ajuda do professor Rodolfo de informática e dos meus fíéis escudeiros e alunos da Eletrotécnica que aceitam qualquer desafio, aí está. Apreciem e comentem sempre.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Literatura e música

     É difícil falar em Literatura sem pensar em outras manifestações artísticas que permeiam o universo cultural de qualquer povo e país.  Com certeza a música é uma delas por marcar definitivamente momentos na vida de qualquer um de nós.  Portanto, segue uma música angolana para estreitarmos nossos laços com este país e sua cultura.  Espero que gostem e comentem!!


terça-feira, 31 de maio de 2011

Guerra civil em Angola

  

    No primeiro e segundo conto, pudemos ter contato com pormenores que fazem alusão a guerra civil em Angola. O que voce sabe ou gostaria de saber sobre este período neste país de África?
     Caso queira comente o segundo conto Eles não são como nós.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Convencional ou moderno?

     Tendo em vista  maior conforto acompanhado bem de perto pela rapidez e o dinamismo, proponho aos participantes da Oficina Virtual de Literatura Africana que façam a sua opção por  receber os contos do escritor Agualusa via email ou em "livretos " como tem sido até agora.
     Portanto basta apenas nos comentários colocar EMAIL ou LIVRETO e saberei a quem enviar um e outro. Participem!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Quem tem medo do Papai Noel?

    


     O primeiro conto do livro Manual prático de levitação, de Agualusa, é A noite em que prenderam Papai Noel. Ele faz parte do grupo de seis contos que se passam em Angola e conta a história de um inusitado Papai Noel, não é mesmo? Os outros contos estão divididos em mais seis que desenrolam-se no Brasil e os oito últimos, como o autor mesmo os intitula, acontecem em " outros lugares de errância ".
     Voltemos ao Papai Noel. Você conhece ou se lembra de alguma história com um papai noel tão diferente quanto o velho Pascoal? Resuma e poste no comentário. Se for de alguma obra literária não esqueça de escrever o nome do autor.  Conte-nos e encante-nos!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Navegando nas ondas de Agualusa

    Do mês de abril até novembro acontecerá nossa Oficina Virtual de Literatura Africana.
    Nosso autor neste ano é José Eduardo Agualusa, nascido em Huambo, Angola, aos 13 dias de dezembro de1960. Estudou Agronomia e silvícultura em Lisboa.  É jornalista e divide seu tempo entre Luanda, Lisboa e viagens ao Brasil. Sua família é portuguesa do lado materno e brasileira do lado paterno. Os seus livros estão traduzidos para diversas línguas.
    O livro trabalhado, Manual prático de levitação, reúne contos anteriormente publicados em revistas,  jornais, e coletâneas angolanas e portuguesas.




terça-feira, 5 de abril de 2011

Literatura?! Online?!

     Sim caríssimos, esta é a hora, este é o blog!
Diante da necessidade cada vez maior de canais de comunicação que atendam a comunidade escolar nestes tempos contemporaneos, estamos de portas ( ou seriam "janelas"?) abertas para todos que apreciem a Literatura, a ETEJK e a nossa sedutora internet.                                                                                                
     Comecem, acessem, postem, carpe diem! Sejam mais do que bem-vindos!